Os
sucessivos escândalos envolvendo o Senado e seus principais dirigentes
vêm revelando uma trama de corrupção e desrespeito com a coisa pública
típicos de uma sociedade oligárquica e patrimonialista, onde os donos
do poder tratam os assuntos públicos como se fossem assuntos privados,
domésticos.
Pagamentos de horas extras não trabalhadas, nepotismo através de
empresas terceirizadas e sonegação fiscal. Um neto do senador José
Sarney operando crédito consignado dos funcionários do Senado e o
próprio presidente do Senado recebendo R$ 3.800 por mês como auxílio
moradia mesmo possuindo residência em Brasília. Pelo menos 663 decisões
não publicadas, secretas. Entre elas, nomeações de pelo menos 10
agregados e parentes de José Sarney.
Os acontecimentos que observamos ferem todos os princípios
fundamentais da administração pública estabelecidos pelo Artigo 37 da
Constituição: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e
eficiência.
Exemplarmente, o caso dos atos secretos, longe de ser mero detalhe é
fato gravíssimo, pois a publicidade dos atos é condição básica para sua
eficácia. Observem que as leis não passam a valer na data de sua
votação pelo parlamento, nem pela sanção do chefe do executivo, mas
somente valem a partir da sua publicação. Isto também é válido para os
atos administrativos. Portanto, são mais de seiscentos atos
administrativos que precisam ser anulados com a identificação dos
responsáveis por ressarcir os cofres públicos dos salários e contratos
pagos ilegalmente.
Diante de fatos tão graves, nosso partido, o PSOL, protocolou
pedidos de investigação, pelo Conselho de Ética do Senado, da conduta
do presidente da Casa, senador José Sarney (PMDB-AP), e do
ex-presidente Renan Calheiros (PMDB-AL). Os dois senadores presidiram o
Senado no período de 1995 e 2009, quando Agaciel Maia, indicado por
Sarney, ocupou a direção geral do Senado.
O Brasil é um dos países com a maior desigualdade social do mundo e
lutar contra a corrupção é lutar contra a desigualdade social. Não
apenas porque os recursos desviados deixam de beneficiar a todos nós
para beneficiar apenas os corruptos, mas porque é através da corrupção
que nossos podres poderes influenciam as decisões políticas, financiam
campanhas milionárias e garantem que as políticas de Estado continuem
atendendo ao apetite guloso dos especuladores de plantão.
Apesar de todo o escândalo, a força institucional dos que querem
mudanças é ainda muito pequena. E não basta lutarmos apenas pela
cassação de um ou de outro parlamentar. As punições são necessárias,
mas precisamos de profundas reformas que garantam a transparência na
gestão dos órgãos públicos.
Somente a mobilização popular pode garantir o sucesso da luta por
investigações profundas que levem à responsabilização e punição dos
culpados e, mais importante, por reformas políticas e administrativas
que impeçam a repetição destes crimes.
A garotada já está manifestando sua indignação através da internet.
No Twitter, a campanha “forasarney” chegou a registrar mais de dez mil
mensagens em uma hora e ajudou a manter o debate vivo.
Entretanto, não podemos parar por aqui, precisamos de um grande
movimento da cidadania que estabeleça definitivamente os princípios
republicanos entre nós.