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sábado, novembro 28 2009 - 09:12
por Renato Cinco no Blog Sobredrogas
Na Proclamação do
Anhangabaú da Felicidade, manifesto do Teatro Oficina, Zé Celso lançou
um desafio para o Brasil: “Ser o primeiro país do mundo a promover a
grandeza da Abolição da Escravidão do século 21 através da
descriminalização Total das Drogas, tirando da Polícia sua
administração e passando para o Ministério da Saúde, Cultura e
evidentemente da Fazenda... tornando-a uma questão totalmente Cultural,
que livrará o país deste Genocídio praticado diariamente principalmente
contra as crianças de todos os Canudos-Favelas de todo País.
”À
primeira vista pode parecer descabido comparar a legalização das drogas
no século XXI com a abolição da escravidão no século XIX, mas estas
palavras do Zé Celso são muito sábias e lúcidas, revelando sua
capacidade de perceber a realidade muito além dos discursos oficiais.
A
criminalização das drogas é uma estratégia de controle social e não uma
política de proteção da saúde pública, como proclamam os defensores da
“War on Drugs” de Richard Nixon. A realidade demonstra claramente a
total incapacidade da política proibicionista de proteger a saúde
pública, e os próprios Estados Unidos - país que mais gasta com a
Guerra às Drogas em todo o mundo -, têm a maior taxa de usuários de
drogas ilícitas do mundo. Cerca de 40% da população dos EUA já utilizou
drogas ilícitas, inclusive Barack Obama, Bush filho e Bill Clinton.
Por
outro lado, a Guerra às Drogas é extremamente eficiente como
instrumento de criminalização e perseguição de grupos socais, de
movimentos políticos e até mesmo de países. Recentemente, em palestras
no Rio de Janeiro, o policial estadunidense e fundador da Law
Enforcement Against Prohibition (LEAP), Jack Cole, denunciou o caráter
racista da War on Drugs nos EUA, revelando que hoje seu país encarcera
cerca de 6,9% da população negra contra 0,9% da branca. O regime do
Apartheid da África do Sul encarcerou 0,8% da população negra.
No Brasil o caráter racista da proibição das drogas também está
presente e a perseguição e criminalização da maconha ocorreu no
contexto de estigmatização da cultura negra. Porém, em nosso país a
Guerra às Drogas atinge a pobreza de maneira geral, e apesar da pouca
importância para o mercado ilícito, são os pequenos e miseráveis
varejistas do tráfico os que lotam as cadeias, necrotérios e microondas.
De
um ponto de vista antiproibicionista a lei 11343/2006 tem o mérito do
fim da pena de prisão para o usuário de drogas, incluindo os que
cultivam para consumo próprio. Ao não estabelecer, porém, critérios
objetivos para a diferenciação de usuários e traficantes, a lei permite
que usuários pobres e sem acesso a advogados sejam enquadrados como
traficantes.
Além disso, ao manter na ilegalidade o comércio de
drogas e ainda ao aumentar a pena mínima de prisão para os traficantes,
a lei 11343 contribui para a dinâmica de acumulação da violência nas
cidades brasileiras.
Nos últimos anos, vimos no Rio de Janeiro o
surgimento da criminalidade policial organizada na forma das milícias.
Muito mais poderosas do que as quadrilhas de varejistas do tráfico, os
milicianos vêm aumentando cada vez mais sua base territorial e já estão
se infiltrando no poder legislativo. Se não conseguirmos romper com
este círculo vicioso de corrupção e violência, a própria democratização
da sociedade fica ameaçada.
Nossa sociedade precisa romper com
os velhos esquemas de controle social através da violência do Estado e
finalmente aceitar que a paz é fruto da justiça.
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